Violência no Iraque faz com que cada vez mais cristãos fujam

Uma nova onda de cristãos iraquianos fugiu para o norte do Iraque ou para o exterior em meio a uma campanha de violência contra eles eo crescente medo de que as forças de segurança do país sejam incapazes ou – pior ainda – estejam indispostas a protegê-los.
A fuga – que envolve milhares de moradores de Bagdá e Mosul, principalmente – aconteceu após um cerco a uma igreja da capital no dia 31 de outubro, que matou 51 fiéis e dois padres e uma subsequente série de atentados e assassinatos de cristãos. Este novo êxodo, que não é o primeiro, ressalta o contínuo deslocamento de iraquianos apesar da melhoria geral na segurança e da quase resolução do impasse político que assola o país desde as eleições de março. É uma ameaça de reduzir ainda mais o que o arquidiácono Emanuel Youkhana da Igreja Assíria do Oriente chamou de “uma comunidade cujas raízes estavam no Iraque antes mesmo de Cristo”.

Foto: The New York Times
Noivas prontas para ritual sabean mandeans, em Bagdá

Aqueles que fugiram da última onda de violência – muitos deles em pânico, apenas com os bens que conseguiram colocar em seus carros – alertaram que a nova violência pressagia o fim da fé no Iraque. Vários evocaram a saída em massa dos judeus do Iraque após a fundação do Estado de Israel em 1948.
“É exatamente o que aconteceu com os judeus”, disse Nassir Sharhoom, 47 anos, que fugiu no mês passado de Dora, antes um bairro misto de Bagdá, para a capital curda de Erbil com sua família. “Eles querem nos ver partir”.
Os líderes iraquianos, incluindo o primeiro-ministro Nouri Al-Maliki, comprometeram-se a reforçar a segurança e apelaram à tolerância para as crenças minoritárias no país predominantemente muçulmano.
História

“O cristão é um iraquiano”, disse ele após visitar os feridos durante o cerco da Igreja Nossa Senhora da Salvação, o pior ato de violência contra os cristãos desde 2003. “Ele é o filho do Iraque e das profundezas de uma civilização da qual nos orgulhamos”.
Para aqueles que fugiram, no entanto, essas declarações foram recebidas com descrença. As ameaças diárias, a incerteza e o terror palpável que muitos enfrentam sobrepujaram até mesmo os apelos de líderes cristãos para que não abandonem o seu lugar histórico em um Iraque diverso.
“Sua fé em Deus é forte”, disse o reverendo Gabriele Tooma, que dirige o Mosteiro da Virgem Maria, parte da Igreja Católica Caldeia em Qosh, que abriu suas salas monástica para 25 famílias nas últimas semanas. “É a sua fé no governo que enfraqueceu”.

Foto: The New York Times
Monastério da Virgem Maria, em Qosh, no Curdistão iraquiano

Os cristãos, naturalmente, não são as únicas vítimas do derramamento de sangue que atinge o Iraque há mais de sete anos e meio, árabes sunitas e xiitas morreram em uma escala muito maior. Apenas dois dias depois do ataque à igreja, uma dúzia de bombas atingiu bairros sunitas e xiitas em Bagdá matando pelo menos 68 pessoas e ferindo outras centenas.
Os cristãos e outros grupos minoritários menores aqui, no entanto, têm sido feitos de alvo explicitamente e emigraram em números desproporcionais. De acordo com o Escritório do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, esses grupos representam 20% dos iraquianos que foram para o exterior, enquanto representavam apenas 3% da população no país antes da guerra.
Metade da população
Mais da metade da comunidade cristã do Iraque, estimada em torno de 800 mil a 1,4 milhões antes da invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003, já deixou o país.
O Estado Islâmico do Iraque, uma representação do grupo insurgente Al-Qaeda no país, reivindicou a responsabilidade pelo cerco e disse que seus combatentes irão matar cristãos “onde quer que possam alcançá-los”.

O que se seguiu no mês passado foram dezenas de tiroteios e atentados em Bagdá e Mossul, as duas cidades fora da região semi-autônoma curda no norte do Iraque. Pelo menos uma dúzia mais de cristãos morreu, oito deles em Mossul.
Três gerações da família Gorgiz – 15 pessoas no total – deixaram suas casas na manhã do dia 23 de novembro com a propagação dos assassinatos. Apertados em um quarto individual em um mosteiro em Qosh, eles descreveram que vivem em estado de sítio virtual, com medo de usar cruzes nas ruas, de trabalhar ou mesmo sair de suas casas.
Na noite antes de partir, Diana Gorgiz, 35 anos, disse ter ouvido vozes e gritos. Alguém pôs fogo no jardim da casa de um vizinho. O Exército iraquiano chegou e ficou até de manhã, só para dizer que eles estavam seguros lá. A família Gorgiz tomou isso como um alerta – e uma indicação de cumplicidade, tácita ou não, das forças de segurança iraquianas.
“Quando o Exército vem e diz: ‘Nós não podemos protegê-los no que mais você pode acreditar'”, questionou Gorgiz.
Não há um número exato dos que fugiram para outra região do país ou para o exterior. A ONU tem mais de 1,1 mil famílias registradas. Um fluxo constante de cristãos para a Turquia teve um auge em novembro, com 243 pessoas, segundo um oficial local.
Governo curdo
O governo regional curdo do norte do Iraque se ofereceu como refúgio e se comprometeu a ajudar os refugiados com moradia e emprego. Muitos dos que fugiram são ricos o suficiente para pagar aluguéis no Curdistão iraquiano, outros foram morar com parentes e aqueles em pior situação foram parar nos mosteiros locais.
Houve êxodos anteriores, especialmente de Mosul. Em outubro de 2008, mais de 12 mil cristãos fugiram após uma onda de assassinatos que matou 14 cristãos. Em fevereiro deste ano, mais de 4 mil fugiram para a região controlada pelos curdos em Nínive ou para a Síria depois que 10 cristãos foram mortos.
Quando a violência diminuiu após cada êxodo, muitos voltaram para suas casas e empregos, embora não todos, deixando cada vez menos cristãos no país. Por uma estimativa, apenas 5.000 dos 100.000 cristãos que viviam em Mosul permanecem na região.

Foto: The New York Times
Cristãos desalojados arranjam abrigo temporário em monastério, na região curda do Iraque

O deslocamento dos cristãos continuou apesar das proteções legais que a Constituição do Iraque oferece a minorias religiosas e étnicas, embora o islã seja a religião oficial do Estado e nenhuma lei que contradiz seus preceitos básicos possa ser aprovada.
A Comissão Internacional sobre Liberdade Religiosa dos Estados Unidos, indicada pelo presidente e pelo Congresso, disse que as leis de proteção às minorias religiosas no Iraque – incluindo os cristãos, yazidis e sabean mandeans, seguidores de São João Batista – fizeram pouco para deter a violência ou a discriminação oficial no emprego, habitação e outros assuntos.
“A violência, o deslocamentos forçado, a marginalização, a discriminação e o descaso sofrido por membros desses grupos ameaçam a existência dessas comunidades antigas no Iraque”, disse a comissão em seu último relatório anual, publicado em maio.
Prisão de rebeldes
Na semana passada, as autoridades de segurança anunciaram a prisão dos rebeldes que planejaram o ataque à Igreja Nossa Senhora da Salvação – os responsáveis pela realização do ataque morreram quando as forças iraquianas invadiram a igreja. Eles ofereceram poucos detalhes sobre a prisão e um porta-voz do Exército dos Estados Unidos, que regularmente se junta a forças iraquianas para executar as detenções, disse que não tinha informações sobre os detidos.
Emanuel disse que o governo precisa fazer mais para preservar uma comunidade que está sob cerco no Iraque há décadas – desde o primeiro massacre de cristãos em Sumail, em 1933, após a criação da nação iraquiana à ditadura de Saddam Hussein e ao extremismo niilista de hoje que, em suas palavras, tomou o islã como refém.
O convite de países europeus para que os cristãos emigrem após o ataque, disse, apenas apressaria a partida de mais pessoas, o que “não é uma solução”. Ao invés disso, a recente onda de violência deve dar um impulso à criação de um enclave cristão autônomo na província de Nínive, que agora está sob o controle da região curda. Essa ideia, porém, tem pouco apoio político em Bagdá ou no Curdistão iraquiano.
“O que aconteceu foi feito de forma repetida e sistematica”, disse ele. “Nós temos visto isso em Mosul, em Bagdá. A mensagem é muito clara: cortar as raízes dos cristãos e forçá-los a sair do país”.
*Por Steven Lee Myers, com reportagem de Yasmine Mousa e Sebnem Arsu
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